Demétrio Vecchioli

Favela Conectada era terceirizada pelo ICB e subcontratava servidores de internet. Maiores repasses, porém, não têm nota fiscal

Demétrio Vecchioli
14/09/2026 13:41, atualizado 14/09/2026 13:45
Fabio Arantes/ Secom
Documentos encontrados pela Polícia Civil de São Paulo na sede da Favela Conectada, empresa terceirizada pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) para fornecer internet na periferia de São Paulo, mostram comprovantes de que ela remunerava os prestadores de serviço com valores relativamente baixos e transferia centenas de milhares de reais, sem nota fiscal, para empresas ligadas a evangélicos.
A Favela Conectada pertencia a Alex Leandro Bispo dos Santos, investigado por feminicídio pela suspeita de espancar a esposa momentos antes de ela cair do 10º de um prédio e morrer. Suspeito de ser membro do PCC, ele estava preso até o mês passado, foi solto e, quando uma nova ordem de prisão foi expedida, já estava foragido.
Como revelou a coluna ainda em dezembro do ano passado, a empresa dele recebeu R$ 12 milhões do ICB, no âmbito do contrato de fornecimento de wi-fi com a prefeitura de São Paulo. O contrato – no qual ele foi identificado só como “Alex”, sem sobrenome e reconhecimento da assinatura, apesar do alto valor envolvido – previa a manutenção de 2.000 pontos de internet, com pagamento de R$ 512,93/mês por cada ponto.
Documentos apreendidos pela Polícia Civil em junho na sede da empresa mostram que a Favela Conectada, terceirizada pelo ICB, também não executava o serviço, subcontratando servidores de internet a um custo médio entre R$ 100 e R$ 150 por ponto de internet – ou seja, a prefeitura pagava uma mensalidade de R$ 1.800 por ponto ao ICB, que pagava R$ 512 à Favela Conectada, que pagava até R$ 150 ao servidor.
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Transferências para empresas ligadas a evangélicos
A documentação apreendida inclui dezenas de faturas, notas fiscais e comprovantes de pagamentos que vão de compras de material de escritório a vale transporte de funcionários, de valores que vão de R$ 100 a R$ 15 mil, em um período que envolve os meses de junho e julho de 2025. Entre as faturas de internet, a maior envolvia 107 pontos, que custavam uma mensalidade de R$ 13,1 mil.
Os valores que mais chamam atenção, porém, não têm nota fiscal equivalente e aparecem apenas em comprovantes de transferências.
Depois de receber uma transferência de R$ 2 milhões do ICB em 7 de julho, às 15h26 do dia 16 de julho a Favela Conectada transferiu R$ 60 mil para a empresa “Audaxia Serviços de Pagamento”. Minutos depois, às 15h48, mais R$ 250 mil – os números eram sempre redondos. às 16h06, R$ 500 mil para a “BCS Intermediações LTDA”.
No dia seguinte, às 9h50, mais R$ 500 mil para a Audaxia. À tarde, outros R$ 250 mil para a BCS em uma transação e específicos R$ 63.277,37 em outra. Não aparece entre os documentos qualquer nota fiscal que explique os pagamentos.
As duas empresas – Audaxia e BCS – pertencem ao mesmo grupo econômico, de Palmas (TO). Hoje chamada Soberano Sociedade de Crédito, a BCS tem três sócios – João Paulo Morais Ferreira, José André da Costa e Marcos Halley Gomes da Silva. Já a Audaxia pertence a José André e à BRS Holding, que tem como representante legal Marcos Halley.
João Paulo, de acordo com dados públicos, foi presidente da organização religiosa Família do Amor Church, de Valparaíso/GO. Já José André e presidente da Igreja Aliança Evangélica PMW, de Palmas.
As duas empresas tiveram vida curta, ao menos nas redes sociais. A Audaxia se apresentava como plataforma de venda de cursos online e seus posts no Instagram começaram em março de 2025 e terminaram em agosto do mesmo ano. Já a BCS – com nome fantasia de “Soberano SCM” – se apresentava como plataforma financeira e, no Instagram, viveu de março a maio de 2025. As duas empresas já estavam “fora do ar” quando receberam R$ 1,8 milhões da Favela Conectada.
Ainda que a Soberano se apresentasse como instituição de pagamento, a empresa nunca teve autorização do Banco Central para operar no sistema financeiro.


