Vinicius Passarelli

Atualmente foragido, Mohamad Mourad, o "Primo", foi apontado por funcionários como o real proprietário da Usina Itajobi, no interior de SP

Vinicius Passarelli
24/09/2026 12:13, atualizado 24/09/2026 12:16
Reprodução/Instagram
Funcionários da Usina Itajobi, em Marapoama, no interior de São Paulo, relataram a investigadores que o empresário Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, atualmente foragido da Justiça, comparecia, em média, uma vez por semana no local e que ele seria o real proprietário da unidade.
A usina, que fica na região de Catanduva, no interior paulista, é identificada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) como uma das peças do esquema de lavagem de dinheiro, blindagem patrimonial e ocultação de bens operado pela organização criminosa liderada por Primo e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco.
Nesta quinta-feira (24/9), o MPSP deflagrou a Operação Crédito Oculto, terceira fase da Carbono Oculto, que investiga a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em São Paulo e outros seis estados.
De acordo com a investigação, no cumprimento de mandados de busca e apreensão na Itajobi, foram coletados elementos indicando conexões entre a usina e a distribuidora Terrana, um dos principais alvos da novo operação.
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“Os funcionários foram unânimes em afirmar que o senhor “João” seria o proprietário da unidade, mencionando que ele comparece à usina, em média, uma vez por semana. Também foi informado que “João” possui um sobrinho que costuma frequentar o local”, diz o relatório da promotoria.
João era a forma como Primo se apresentava para usineiros e produtores locais. Segundo o documento, os funcionários da Itajobi também relataram que as usinas Carolo, Virgolino de Oliveira, Centroálcool e Rio Pardo também pertenciam ao mesmo grupo empresarial.
O Metrópoles tenta contato com a defesa da Usina Itajobi.
O MPSP aponta que, após passar por um processo de recuperação judicial em 2019, encerrado no mesmo ano após renegociação, a usina foi formalmente adquirida em 2023 por investidores vinculados ao Grupo Entre, titularizado por Antonio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, por meio do fundo Celebration.
Freixo firmou o termo de colaboração com a Procuradoria-Geral da República (PGR) no início deste mês no âmbito de outra investigação. Segundo a investigação da Polícia Federal (PF), a empresa teria sido usada para os repasses de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para a produção de Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Crédito Oculto
A operação desta quinta-feira (24/9) é um desdobramento da Carbono Oculto, que aprofundou investigações sobre a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis.
A investigação revelou o uso de fintechs, fundos de investimento e empresas de fachada para ocultar o controle da usina sucroalcooleira Itajobi e viabilizar a compra da distribuidora de combustíveis Tobras Distribuidora de Combustíveis Ltda., conhecida como Terrana.
A operação mira uma estrutura criada para esconder os verdadeiros donos da usina sucroalcooleira Itajobi, no interior de São Paulo, e viabilizar a compra da distribuidora de combustíveis Terrana.
Os líderes do esquema, segundo as autoridades, seriam Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”. Os dois estão foragidos.
A aquisição da Terrana teria como objetivo ocultar dinheiro ilícito do crime organizado para financiar a expansão societária do grupo, especialmente a atuação de Beto Louco e Mourad no setor de postos de combustíveis.
O grupo criou empresas de fachada colocadas no nome de um “laranja” e criou uma operação financeira circular para dar aparência de legalidade às operações.
Nessa operação financeira, o fundo de investimentos Radford, que tinha como cotista único a usina Itajobi, controlada, na prática, por Beto Louco e Primo. O dinheiro foi aplicado em Certificados de Depósito Bancário Vinculados (CDBVs) emitidos pelo banco.
Com lastro nos CDBVs, o Genial emitiu créditos e simulou um empréstimo em favor das empresas de fachada. O valor foi usado na compra da distribuidora de combustíveis Terrana.
As autoridades alegam que, como o único cotista do Radford era a Usina Itajobi, tratou-se de uma operação circular: o grupo emprestou dinheiro a si mesmo por meio do fundo e do banco para simular um financiamento legítimo de mercado.
São cumpridos mandados de busca e apreensão em São Paulo e outros seis estados. Entre os alvos das buscas, estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-executivo do Banco Genial, e seus irmãos, André e Bruno Tupinambá. O dono da Entre Investimentos, o empresário Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro, também é alvo.
Em nota ao Metrópoles, o Banco Genial esclareceu que Humberto Tupinambá “não integra a Diretoria e não é sócio da instituição desde maio de 2026”. “Todas as informações relacionadas às operações envolvendo o Fundo Radford, inclusive aquelas relacionadas às empresas Berna e Branson Holdings, que estavam em poder da instituição, foram fornecidas pela própria Genial ao Gaeco-SP. Em relação às operações mencionadas, também foram realizadas as comunicações cabíveis ao Coaf”, diz o banco.
O Genial informou, ainda, que, ao tomar conhecimento dos fatos, adotou medidas adicionais de governança e controle, “incluindo a instauração de processo de Inspetoria interna, a revisão da governança das operações de crédito, o afastamento do então diretor dos respectivos processos decisórios e sua posterior destituição”.
Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a Genial diz ter renunciado à administração do Fundo Radford e manteve sua postura de colaboração com as autoridades, fornecendo as informações e os documentos solicitados.
A reportagem também busca a defesa dos demais envolvidos. A reportagem será atualizada em caso de manifestação.
A investigação do MPSP tem o apoio da Receita Federal, da Secretaria de Fazenda de São Paulo, da Procuradoria-Geral do Estado e das polícias Civil e Militar.


